Artigo – Brasil, mostra a tua cara!

Por Valdeci Oliveira –

Em 1988, um jovem poeta brasileiro lançou uma música que, passados quase 40 anos, seus versos ainda calam fundo na atual conjuntura, principalmente quando a principal pauta capitaneada pelo presidente Lula e pelo ministro Haddad tem o nome de ‘justiça fiscal’.

O saudoso autor chamava-se Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, e a canção trazia o nome do nosso país em seu título. Com o verso ‘Brasil, mostra tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim’, a composição dialogava com quem queria mudança na política, nas relações entre o público e o privado e, em suma, um país mais justo.

Algumas dessas pautas, mesmo a trancos e barrancos, conquistamos; outras registraram certo avanço. Mas a principal chaga da nossa desigualdade, que é a concentração de renda, praticamente ficou intocada, pois sempre que é trazida ao debate é ferozmente combatida. E seus proponentes são acusados de dividir o país – como se ele já não o fosse há séculos em termos de direitos sociais – e de jogar pobre contra rico, mesmo a realidade nos mostrando ser o contrário.

Lembrei do Cazuza num momento em que o país precisa realmente mostrar sua cara e o povo – os desafortunados e os subgrupos que compõem a classe média – ver de fato quem ‘paga pra gente ficar assim’. O decreto com a proposta de elevar o IOF do sistema financeiro, na compra de dólares e das Bets, para equilibrar as contas públicas, foi derrubado numa manobra inconstitucional por deputados que pregam o corte de orçamento, o congelamento do salário mínimo, mas não chiaram no governo passado, que, durante quatro anos, cobrou 6,38% de IOF contra os 3,5% da gestão atual.

Para esse grupo, que sempre que pode não mostra a cara, tudo é tão relativo que não houve grita quando o governo anterior tirou impostos jet skis, lanchas e veleiros, abrindo mão de recursos relevantes para custear serviços públicos como saúde e previdência.

Repórteres do jornal Valor Econômico mostraram a largura da benevolência com o andar de cima: quem recebe entre R$ 150 milhões e R$ 350 milhões paga uma alíquota média anual de 1,87%. Acima de R$ 1 bi, 5,54%. Enquanto isso, a proposta do presidente Lula de isentar assalariados que ganham até R$ 5 mil está parada no Congresso.

Se fosse um filme, esses números estariam classificados como de “violência extrema” – contra a maioria do povo. E a postura de alguns políticos, se fosse uma música, seria outra de Cazuza, que diz: “A tua piscina tá cheia de ratos. Tuas ideias não correspondem aos fatos.”

Imagem: https://outraspalavras.net/

(Artigo originalmente publicado no jornal Diário de Santa Maria – edição de 10 de julho de 2025)

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