Por Valdeci Oliveira –
A entrega era para ter sido em março, mas uma outra tragédia, o acidente com um ônibus levando professores e alunos da UFSM, que lamentavelmente ceifou a vida de sete jovens e deixou mais de 20 feridos, transferiu a cerimônia para esta semana. Então, na última terça-feira (2), na simbólica abertura do 1º Congresso Internacional de Vítimas de Queimaduras em Tragédias, tivemos a honra de outorgar a Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM) com a maior condecoração da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Avalizada pela Mesa Diretora do Parlamento gaúcho, formada por deputados e deputadas das mais diversas bancadas do Legislativo, a Medalha do Mérito Farroupilha chegou às ‘mãos’ da AVTSM, por meio do seu presidente, Flávio José da Silva, não apenas como homenagem e reconhecimento, mas também como forma de desagravo, de apoio incondicional à sua luta, como forma de denúncia da dor remoída depois de mais de uma década da ferida aberta, que teima em não cicatrizar.
Quis o destino que a concessão da honraria acontecesse poucos dias depois de um duro golpe desferido não no estômago, mas no coração já dolorido dos pais, mães, irmãos, avós e demais parentes e amigos das 242 vítimas fatais e mais de 600 feridos do incêndio da Boate Kiss, 12 anos atrás. Em sentido figurado, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) deu um tapa na cara de muita gente já sofrida ao decidir, nos últimos dias de agosto, reduzir as penas dos únicos quatro condenados pelo incêndio da boate. Decisão da Justiça se cumpre, mas não impede que discordemos dela.
O Mérito Farroupilha à Associação dos Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, a partir da decisão do TJ, mostrou-se ainda mais legítimo e necessário, pois nos mostra que a luta por Justiça precisa ser renovada, valorizada, fortalecida, exigida. Sabe-se lá de onde esses pais buscam energias para seguir lutando contra tantos reveses. Mas o certo é que eles, felizmente, prosseguem e prosseguirão bradando por justiça e reparação de direitos.
A Medalha do Mérito Farroupilha, mais do que uma ação simbólica, também serve como um pequeno, mas concreto gesto de alento a uma caminhada que começou naquela terrível madrugada do dia 27 de janeiro de 2013 e que não tem data para terminar. Força, AVTSM! Força, pais, amigos e familiares das vítimas e sobreviventes de uma das mais tristes páginas da história de Santa Maria, do Rio Grande e do Brasil.
(Artigo originalmente publicado no jornal Diário de Santa Maria – edição de 4 de setembro de 2025)
Foto: Fernando Frazão/Arquivo Agência Brasil

