Artigo – Golpe Nunca Mais!

Por Valdeci Oliveira

Por ironia do destino, estão chamando o julgamento da trama golpista – mais precisamente o seu resultado e a determinação dias atrás do início do cumprimento das penas – como “vacina contra tentativa de golpe de estado”.

Apropriado, pois a ironia reside justamente no fato de que os agora apenados também representam, de uma forma ou de outra, o movimento anticiência que ganhou corpo no período da covid-19 e tudo aquilo de ruim que isso significou. E desta vez, querendo ou não, foram obrigados a experimentarem o imunizante.

Humores à parte, o fato é que a última semana do mês de novembro nos reservou um feito histórico, que constará nos livros, será descrito como um momento ímpar na vida republicana brasileira até aqui. Desde o golpe militar contra a monarquia e que deu início à nossa República, esta é a primeira vez em mais de 130 anos que militares, principalmente de alta patente, prestam contas à Justiça por tramarem a subversão da ordem democrática – e tudo mais que viria junto neste nefasto pacote, um combo que inclui perseguição a opositores, a instituições, universidades, organizações da sociedade civil, de trabalhadores, estudantes e imprensa. De praxe, só costumam perder posto ou liberdade em casos envolvendo desvio de dinheiro, o que mostra o “valor” deste em relação à Democracia.

Neste circo em que buscam colocar no picadeiro a impunidade travestida de “perseguição política”, nos chama atenção as diferentes formas de encarar os fatos, pois para escapar do braço longo da Justiça, os gostos e estratégias se dividem entre fugas para o exterior, atestados médicos, crimes de lesa-pátria em forma de sanções econômicas estrangeiras, soluços e crises de choro de quem desdenhou até mesmo das vítimas da pandemia.

Também não faltaram provas, a maioria produzida pelos próprios, sejam em forma de arquivos de áudio, de texto ou de vídeos, mostrando reuniões que não eram para ter sido gravadas, minutas que não deveriam ter sido impressas ou planos de assassinato que não deveriam ter saído do modo “desejo mental”.

As “estratégias” mais recentes para ficarem fora do alcance da lei criaram desconforto no mundo político, provocaram risos na esfera policial e geraram uma quantidade enorme de “memes” na seara das redes sociais. E elas incluíram chamar vigílias com rezas e a tentativa de desarmar, por conta de “curiosidade e alucinação”, uma tornozeleira eletrônica por um e a alegação de outro, afirmando que desde 2018 vem sofrendo de Alzheimer.

Por mais patético que pareça, foi isso o que aconteceu, o que mostra o grau de covardia e desprezo pela Justiça de homens que já afirmaram, no estilo “testosterona belicista”, terem sido treinados para matar, no caso do primeiro, ao justificar a “dureza” de suas ações e opiniões, ou de ter o “melhor emprego do mundo”, no caso do segundo, quando este comandou uma tropa no Haiti em missão de pacificação e acabou invadindo um bairro periférico, assassinando 63 pessoas e ferindo outras 30, gerando “desconforto” ao Brasil e uma denúncia na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Aliás, esse do Alzheimer gera ainda mais preocupação, pois trata-se de um general que esteve no comando de área sensível no País, o GSI, que entre suas atribuições, além da segurança presidencial, planeja e supervisiona segurança cibernética, gestão de incidentes computacionais, proteção de dados, credenciamento de segurança e tratamento de informações sigilosas.

Como se fosse pouco, também “coordena as atividades dos programas nuclear e espacial brasileiros, acompanha assuntos relacionados ao terrorismo e às ações destinadas à sua prevenção e neutralização”, diz o próprio site do governo.

Também não há como não comparar o atual momento com o enfrentado pelo presidente Lula, que ficou dois anos preso, se entregou pessoalmente para cumprir sua pena, não alegou problemas de saúde (apesar do câncer tratado fazia pouco) nem fez menção de buscar asilo em embaixada ou fugir do país, sempre enfrentando as adversidades de forma altiva.

E agora, diante do inevitável, a primeira coisa que fazem é pedir anistia, que em qualquer sociedade civilizada não inclui crimes como tortura, desaparecimento forçado e atentados contra a democracia – como o feito pelo governo militar em 1979 em defesa dos próprios interesses – por serem imprescritíveis segundo o direito internacional.

Mas com todo esse episódio, que começou a ser gestado ainda em 2018 com a vitória do extremismo de direita, e cujas penas começaram a ser cumpridas agora, constatamos, até aqui, que evoluímos enquanto sociedade civil, enquanto instituições de estado, enquanto Forças Armadas.

Agora é seguir em frente, continuar na defesa da democracia, no trabalho pelo desenvolvimento econômico com inclusão social, no controle da inflação, na geração de empregos e na atração de investimentos para melhorar a vida do povo.

Em 2025, o Brasil passou a limpo sua História recente. E isso é motivo de orgulho para todos nós. Golpe nunca mais! Ditadura nunca mais!

(Artigo originalmente publicado no site www.claudemirpereira.com.br)

Foto: Paulo Pinto/AGÊNCIA BRASIL

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