Por Valdeci Oliveira –
Neste fevereiro, o Partido dos Trabalhadores completa 46 anos de luta por uma sociedade mais justa e humana, travada nas ruas, nas organizações civis e de forma institucional nos legislativos e executivos brasileiros. Me filiei ao PT pouco depois de sua criação, mas comungo das suas ideias muito antes, quando, metalúrgico, comecei a ver o mundo pela ótica política e social.
E isso já tem perto de 50 anos desde que fui picado pela “mosquinha” dos movimentos populares e das pastorais católicas vinculadas à Teologia da Libertação, que com seu “ver, julgar e agir” me levou de arrasto e conscientemente àquele novo partido que surgia e que reunia trabalhadores de chão de fábrica, intelectuais, estudantes, artistas, religiosos e profissionais liberais.
E o que unia estes “diferentes” era a possibilidade de juntar forças para além da resistência organizada ao regime militar e mudar de fato a realidade e suas regras que levam à exploração dos mais fracos e a permanência da maioria na subsistência.
E, nesse quase meio século, muita água e aprendizado passaram por debaixo dessa ponte. Fomos a única força política que, juntamente com aliados históricos, disputamos todas as nove eleições presidenciais desde a redemocratização brasileira, vencendo cinco e ficando próximo disso em quatro. Perdemos três disputas seguidas desde que a democracia voltou ao país, em 1989, mas sempre de cabeça erguida, reconhecendo o resultado e não duvidando ou envergonhando nosso processo eleitoral. Lambemos as feridas e voltamos para a luta.
E muito me orgulha fazer parte de uma agremiação política que, com qualidades e defeitos, com vitórias e derrotas, foi deixando, como herança pelo caminho, um conjunto de conquistas e avanços. E que se mostra preparada para o futuro e para novos embates na seara da disputa de ideias, na arena da democracia, sempre em busca das transformações necessárias para o povo brasileiro.
Me orgulha fazer parte de um grupo de homens e mulheres que criou no Brasil o maior número de universidades; que possibilitou, via política de cotas, o ingresso dos pretos ao ensino superior; que, com bolsas de estudo, ampliou muito a presença dos pobres nos bancos universitários. Me orgulha fazer parte de um grupo que tirou por duas vezes o Brasil do Mapa da Fome da ONU, que criou a Lei Maria da Penha, que buscou defender a memória, por meio da Comissão da Verdade, das atrocidades cometidas pela ditadura civil-militar de 1964.
E me entusiasma, neste momento, termos recuperado o respeito internacional, estarmos vivendo os melhores índices econômicos dos últimos anos – com baixíssimo desemprego, atividade econômica a todo vapor e renda da classe trabalhadora em alta, fortalecida pela isenção do imposto de renda a milhões de brasileiros e brasileiras. Me orgulha fazer parte de um grupo que prioriza a saúde e a educação públicas, que defende a cultura, respeita direitos e a religiosidade, acredita na ciência e preza pela soberania.
Talvez por isso suscitemos o ódio daqueles que dominaram – e ainda dominam – o poder desde que Cabral aportou aqui em 1500. Os mesmos que descriminam os negros, debocham e jogam para os guetos os homossexuais, menosprezam os indígenas, submetem as mulheres, exploram nossas crianças, se utilizam do trabalho alheio para enriquecer uns poucos e buscam sempre que podem distribuir privilégios a quem já os tem. Talvez por isso espalhem tanta mentira, alimentem discursos de ódio, tenham dado um golpe em Dilma e prendido Lula num processo, mostrado depois, viciado e escandalosamente manipulado.
Duas décadas atrás, uma importante liderança da direita disse, em relação ao PT, num escamoteado flerte com o que de pior o extremismo político pode nos dar, que eles iriam “acabar com essa raça”. Mas uma declaração deste tipo, vindo de alguém que esteve a serviço da última ditadura brasileira, para nós soou como elogio, que nos diferenciou ainda mais da truculência e do autoritarismo deles.
Alguém já escreveu que o ódio ao PT existe muito antes dele ter nascido, pois é o ódio a uma ideia que mexe nas estruturas da exploração humana, da exclusão, do preconceito. Uma ideia que, ao longo de dezenas de décadas, foi sendo aprimorada e que abriga em seu seio diferentes vertentes do pensamento político da esquerda e da centro-esquerda, numa ampla palheta de cores e propostas para combater as desigualdades, com um Estado de bem-estar social estando entre as premissas mínimas e um mercado que sirva à sociedade e não o contrário.
Não sabem nossos oponentes, principalmente aqueles que pregam a aniquilação do outro – como se a política fosse literalmente uma guerra -, que, como disse Lula em sua posse para o terceiro mandato, parafraseando o poeta chileno Pablo Neruda, “ainda que nos arranquem todas as flores, uma por uma, pétala por pétala, nós sabemos que é sempre tempo de replantio, e que a primavera há de chegar.”
Viva a classe trabalhadora. Viva o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras. Viva a Democracia!
(Artigo originalmente publicado no site www.claudemirpereira.com.br)
PT: Foto Ricardo Stuckert

