A um custo de bilhões de dólares e de milhares de vidas – incluindo quase duas centenas de crianças num único dia, de uma única vez, por uma única bomba – a guerra iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã vai além da crueldade, da covardia, de mostrar a “macheza” daqueles cujos problemas talvez Freud explique. Ela arrasta consigo, ladeira abaixo, a economia mundial e coloca em risco a segurança de todo o planeta, com a instabilidade calcificando suas raízes onde quer que seja. Como se a morte de inocentes aos borbotões não se mostrasse suficiente, ela traz consigo também inflação, desabastecimento, medo e inquietação social. E mesmo diante do caos, muitos ainda buscam tirar proveito eleitoral, dividendos políticos, como é o caso da nau insensata chamada bolsonarismo, que navega por diferentes mares, presente não apenas em um único partido, mais em diversas legendas que abrigam o pensamento de direita, não a liberal e democrática, mas a chucra, raivosa. E no melhor estilo do “quanto pior, melhor”.
Sem se importar ou ter respeito pela dor e o desespero de parcelas significativas de civis – ou do apoio ou não à ingerência de países sobre um terceiro, em flagrante desrespeito ao Direito Internacional -, nos bastidores eles, de forma canalha, tão própria desse grupo, comemoram o aumento de preços dos combustíveis por aqui – o diesel em especial – na esperança de que isso desgaste o presidente Lula e se reverta em votos logo ali na frente. Por isso, não levam em consideração e nem se importam com o conjunto de problemas decorrentes do conflito – muito menos suas “justificativas” -, nem mesmo com a conta que chega para todos, independentemente da distância geográfica que se está do conflito.
Assim, buscam se apoiar na chamada “pós-verdade”, que distorce maliciosa e deliberadamente os fatos, o que é real, a partir de apelos emocionais e de crenças, mesmo que subjetivas. Retiram de forma proposital de seus discursos que o Brasil tende a sofrer ainda mais as consequências da guerra por que temos aqui um agravante a considerar, e justamente criado por eles.
Hoje, por conta da privatização levada a cabo pelo governo passado, que retirou da Petrobras importantes refinarias e a maior rede de distribuição de todo o país, incluindo 8 mil postos -, passando tudo isso para o controle dos interesses privados -, não importa o quanto esses combustíveis custem quando entram nos caminhões-tanque que saem pelos portões da petrolífera brasileira. O fato é que eles chegarão aos consumidores finais custando o dobro ou mais, pois a Petrobras perdeu aquilo que até então era fundamental na sua política de preços – a distribuição.
E em momentos de crise como o que estamos enfrentando, o governo ter esse controle é fundamental, essencial para contornar os problemas que vem de fora – ou de dentro. Na prática, a BR Distribuidora atuava como um braço regulador do governo. Sem ela, as empresas privadas que fazem esse serviço elevam os preços para auferir ainda lucro, mesmo sem motivo aparente, mesmo que a gasolina ou outro combustível qualquer não sofra um centavo sequer de reajuste por quem o produz. Ou seja, não se trata apenas de instabilidade no cenário internacional causado por Trump e aplaudido por seus apoiadores, mas de abusos decorrentes da extinção do que havia de controle estratégico do Estado sobre esse que é um importante item na cadeia produtiva de fornecimento de combustível – leia-se energia -, ponto nevrálgico nas sociedades modernas contemporâneas. Até então, tínhamos o que se convencionou chamar de uma estrutura verticalizada, que ia do “poço ao posto”. Tínhamos.
Isso nos foi tirado justamente por quem apoia a guerra, está ao lado do governo Trump e bate palmas para a possibilidade de escassez, de filas nos postos para abastecer ou de greve de transportadores. Esses mesmos que escondem da sociedade brasileira o que “fizeram no verão passado” também surrupiam da opinião pública que em 2022, por conta das suas escolhas conscientes, conduzidas pelo que chamam de “mão invisível” do mercado, e que tentarão nos impor no segundo seguinte que tiverem condições para isso, chegamos a pagar R$ 11 por um litro de gasolina.
Tivesse essa política continuado, estimativas técnicas apontam que hoje estaríamos desembolsando algo em torno de R$ 15. Mas o povo escolheu outro caminho em 30 de outubro daquele ano e os combustíveis deixaram, por decisão política do presidente Lula, de ser comprados de forma dolarizada. Além disso, e por conta do conflito no Oriente Médio, Lula retirou os impostos federais do diesel, do álcool e da gasolina, aumentou o da exportação sobre o petróleo, está oferecendo incentivos aos produtores e importadores de diesel e formatou uma série de ações para fiscalizar as medidas e se estas estão sendo efetivadas aos consumidores.
Falta agora os governadores – a maioria do campo bolsonarista – mostrarem compromisso com o povo brasileiro e fazerem o mesmo.

