Por Valdeci Oliveira –
Como temos assistido pela cobertura jornalística e pelas redes sociais, a redução da jornada 6×1, aquela em que se trabalha 6 dias por semana com direito a apenas um de descanso, tem chamado a atenção cada vez mais das pessoas, que aos poucos começaram a se dar conta de que sim, elas têm o direito a ter uma vida para além do trabalho, uma vida que não seja apenas comer e dormir para no dia seguinte reproduzir o dia anterior. Uma vida que inclua também tempo para lazer, para cuidar de si, organizar e pensar o cotidiano familiar, passar mais tempo com os seus, para aproveitar um pouco mais esse curto espaço de tempo que temos disponível em nossa existência – e que não volta.
São dois os movimentos para isso: uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), já tramitando no Congresso Nacional, e um projeto de lei, este do governo do presidente Lula, que diminui a carga semanal de trabalho, baixando das atuais 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso remunerado, preferencialmente aos sábados e domingos, sem qualquer redução salarial por conta disso.
A tramitação da PEC, nascida no Legislativo pelas mãos de parlamentares de esquerda, foi paralisada nesta semana por deputados de direita e extrema direita – incluindo um gaúcho – do PSDB e PL, espectro político que sempre, desde as mais remotas origens, mesmo com outros nomes, abriga em suas fileiras o pensamento daqueles que se colocam como inimigos de qualquer avanço no mundo do trabalho, sempre com a desculpa de que causará prejuízo econômico, falências, demissões em massa e fuga de capitais no país. Coaduna com essa postura o fato de os presidentes do PL, Valdemar Costa Neto, e do União Brasil, Antônio Rueda, prometeram atuar, nos bastidores ou fora deles, para impedir que qualquer proposta que vise acabar com a escala 6×1 vá à votação. E o fizeram ao vivo e a cores durante encontro com a nata empresarial de São Paulo. As duas legendas, unidas, são donas de 147 das 513 cadeiras disponíveis na Câmara Federal.
Por conta da minha formação acadêmica – não concluída – em História e pelas leituras que passaram pelas minhas mãos devido a minha militância política, lembro que foi assim na época que antecedeu a Lei Áurea, quando os movimentos abolicionistas defendiam o fim daquele absurdo normalizado e as elites sociais e econômicas, apoiadas por seus representantes da classe política, se postaram contrariamente, “prevendo” o caos generalizado, defendendo o “direito” daqueles que tinham adquirido “as propriedades” em forma de humanos.
Da mesma forma ocorreu quando a classe trabalhadora mundial se organizou e resolveu lutar contra as condições insalubres e jornadas exaustivas que iam de 12 a 16 horas diárias e que contavam também com a participação de crianças no mesmo patamar, o que levava muitos a dormirem em qualquer canto nos locais de trabalho, visto que não valia a pena ir para casa. Foi outro momento em que os donos do dinheiro, ombreados por seus prepostos nos parlamentos, avaliaram como inaceitável.
E caro leitor, cara leitora, também foi assim quando Getúlio Vargas, em 1939, criou o salário-mínimo como forma de proibir a oferta de proventos ainda mais irrisórios por parte dos patrões e, de alguma forma, mesmo que fictícia, tentasse garantir um conjunto de condições básicas de subsistência como alimentação, habitação e vestuário.
Um outro exemplo, onde o tacanho e o desumano caminham de mãos dadas com quem detém o poder econômico, aconteceu no início da década de 1960, quando o então presidente João Goulart criou o 13º salário. Na ocasião, O Globo, um dos maiores jornais em termos de influência e circulação, estampou em primeira página manchete com os dizeres: “Considerado desastroso para o país um 13⁰ salário”. Porém, a vida real mostrou o quanto as nossas elites estavam – de novo e conscientemente – erradas, pois a medida ampliou o consumo, a produção e a circulação de dinheiro, fortalecendo a economia.
Passados 64 anos, o mesmo jornal diz agora – ecoando quem defende os interesses do patronato – que a redução da jornada fará o PIB cair 16% e gerar uma legião de desempregados. Um verdadeiro “terrorismo” econômico.
Conforme o tempo passa, fica cada vez mais nítido que se tratam de questões de classe, basta também recordarmos da movimentação desses mesmos grupos sociais para evitar a isenção de imposto de renda para ganhos de até R$ 5 mil.
Por outro lado, as renúncias fiscais no Brasil ao setor privado ultrapassaram R$ 500 bilhões em 2025. E agora exigem que Lula enterre bilhões para socorrer o Banco Regional de Brasília (BRB), envolvido até o pescoço no escândalo, gestado no tempo deles, do caso Master.
Medidas que deram um fim à escala 6×1 são uma realidade em muitos países, sem que estes tenham sofrido qualquer prejuízo econômico. Mas aqui, é combatida por quem, há muitas gerações, dorme em berço esplêndido e busca convencer aqueles que ganham R$ 10 mil que o problema do país não são eles, os do berço esplêndido, mas justamente quem recebe mil.
(Artigo originalmente publicado no site www.claudemirpereira.com.br)

