Pelos próximos quatro meses, ficarei ausente dos espaços de opiniões da imprensa tradicional, onde semanalmente compartilho pensamentos, posições e opiniões com os leitores. Numa analogia em tempos de Copa, fui convocado para integrar a seleção do presidente Lula como pré-candidato a deputado federal nas próximas eleições. E cabe a mim respeitar as regras da Justiça Eleitoral. Mas encerro esse período com uma feliz coincidência. Na mesma semana em que foi anunciado que o Brasil registrou o menor índice de analfabetismo da sua História, entreguei a Medalha da 56ª Legislatura do Parlamento gaúcho a uma santa-mariense referência quando o assunto é educação e cujo reconhecimento extrapola as fronteiras do estado e do país.
Proponente da homenagem, tive o privilégio de conceder a comenda à professora Esther Pillar Grossi, pesquisadora e criadora de métodos inovadores de alfabetização, especialmente voltados a populações vulneráveis, sejam eles adultos, jovens ou crianças. Educadora e pedagoga, formada em Matemática, com mestrado em Psicologia da Educação e doutora em Educação, Esther vem dedicando a maior parte dos seus 90 anos de inquietude diante do saber para uma educação inclusiva. E que rompa os grilhões da ignorância que, se não debelada, leva ao aprisionamento à pobreza, à servidão, ao não saber qual o papel e possibilidades se tem neste imenso latifúndio chamado vida. E para nela sermos protagonistas do nosso próprio destino.
A conquista brasileira em registrar o mais baixo patamar de pessoas em situação de analfabetismo sem sombra de dúvida é fruto do trabalho e dedicação de pessoas como Esther, que dedicam a vida a ensinar os outros. É resultado também do essencial: investimento público. Para efeito comparativo, apenas na educação básica, aquela que compreende a educação infantil e os ensinos fundamental e médio – em suma, de zero a 17 anos – os governos Lula e Dilma aumentaram de R$ 3,4 mil destinados em 2000 para R$ 9,8 mil por aluno em 2015. A partir de 2003, os investimentos públicos federais em educação saíram de R$ 18 bi em 2002 para mais de R$ 132 bi treze anos depois, um crescimento de 160% em pouco mais de uma década. E os dados não são “achômetro”, mas informações públicas e oficiais a partir de números monitorados pelo Portal da Transparência do Governo Federal.
E quando falamos de investimento público estamos falando de garantia de acesso e também de medidas complementares, como alimentação e transporte escolar, creches, escolas de tempo integral, concessão de bolsas de estudo, programa de permanência, ampliação e fortalecimento na formação de professores, incentivo à pesquisa, fortalecimento das cotas raciais e sociais, piso salarial nacional do magistério, entre outros. São medidas como estas que possibilitam termos novas e novos “Esthers”, pois, apesar da queda do pódio do analfabetismo, temos ainda um verdadeiro mar de gente excluída, que não sabe ler e escrever ou são considerados analfabetos funcionais, uma vez que não compreendem textos básicos, não interpretam adequadamente as informações e não sabem resolver operações matemáticas simples.
Ao conceder a Medalha da 56ª Legislatura à professora Esther Grossi, agradecemos por sua inquietude, pelo seu compromisso com a educação pública universal e de qualidade, com o seu pensar e formular métodos inovadores. Ao conceder a Medalha à professora Esther Grossi, reconhecemos que ao estudar a psicologia do aprender ela a dominou e nela inseriu mecanismos que a fizeram libertadora. São nove décadas de vida sendo a maioria delas dedicadas ao ofício de ensinar em suas mais diferentes formas, em seus mais diferentes níveis. Adultos e jovens analfabetos a crianças em fase de alfabetização chegando a professores e professoras que serão mestres de seus pares para que estes, lá na ponta, façam a diferença junto a quem mais precisa. Nesse tempo, mergulhou nas teorias elaboradas pelas maiores e melhores mentes e as colocou em prática, foi além, mostrou que todos podem, merecem e conseguem aprender. E que o aprender é preciso, tanto no sentido de ‘necessário’ como de ‘exatidão’ para se construir uma sociedade mais justa, humana e igualitária.
Ao conceder a Medalha da 56ª Legislatura à professora Esther, lembrei de momentos que me marcaram quando prefeito de Santa Maria. Ao assumir, me deparei com 25 trabalhadoras e trabalhadores analfabetos, mas que a partir de uma parceria com uma escola municipal, receberam aulas três vezes na semana. Na formatura, um deles disse que nunca havia se imaginado assinando o nome sem ser com a digital. E o caso de uma senhora, que, perto dos 80 anos, decidiu estudar para poder ler a Bíblia. Mas nenhum foi tão revelador como os dois filhos de um casal de catadores que, graças aos programas e ações do governo federal, hoje ela é enfermeira e ele advogado.
Ao concedermos a Medalha à professora Esther, dizemos que educação não é mercadoria, mas resistência; não é conformista, mas transformadora; não é indigente, mas cidadã. E Esther é tudo isso.

