O “Oito de Janeiro” fraquejou, por isso estamos aqui!

Por Valdeci Oliveira –

A memória serve para muitas coisas, como deixar viva a ternura dos momentos marcantes da nossa existência, as experiências como pais, filhos ou avós. Ou como o dia em que conhecemos quem se tornou nossa companhia de vida, as férias em família, os degraus que subimos profissionalmente, os acertos de nossas escolhas e o carinho que recebemos e dispensamos aos outros.

Mas a importância da memória também repousa no fundamental aprendizado que faz com que não repitamos os erros antes cometidos. Para além do lugar-comum que muitos relegaram o sentido da frase que diz que aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo, cunhada pelo filósofo espanhol George Santayana, lidar e enfrentar o que vivenciamos é uma tarefa que não fazemos só, mas coletivamente, principalmente quando os atos e seus efeitos alcançam a sociedade como um todo.

Assim como a ditadura civil-militar de 1964, que jogou o Brasil num fosso de 21 anos de desmandos, injustiças, dor, morte e perseguições, deve ser sempre lembrada – e combatida -, o mesmo deve ser feito com os atos perpetrados pela parcela antidemocrática da nossa população no fatídico 8 de janeiro de 2023. Há exatos três anos, completados ontem, uma horda de fanáticos, embalada por um discurso falso e cevado por aqueles que ocuparam o poder a partir de 2019, tentou, a partir da força, depor quem havia sido eleito dois meses antes.

Por mais que queiram fazer crer ter se tratado de uma manifestação pacífica, com velhinhas com a Bíblia sob o braço e vendedores de algodão-doce oferecendo alegria para a criançada, e que todos estavam na Praça dos Três Poderes exercendo sua liberdade de expressão, as provas mostraram o contrário. E a justiça, garantindo o constitucional direito à ampla defesa, julgou e condenou quem tentou ferir de morte a nossa democracia. E isso não devemos nem podemos esquecer, pois, se o fizermos, estaremos dando a senha para que no futuro a história se repita. E se você hoje balança em minimizar os fatos, sugiro que assista novamente aquelas cenas estarrecedoras, amplamente disponíveis na internet.

Nesses três anos, ainda que alguns teimem, na maior desfaçatez, nos impor como lembrança ter se tratado de um “domingo no parque”, muita coisa aconteceu, entre elas o cair das máscaras dos covardes que, mesmo antes das decisões judiciais, pediam clemência, anistia. Começaram com o discurso de que estas seriam para as tais velhinhas, os pais e mães de família que adentraram nas sedes dos poderes da República somente para orar pelo Brasil. Não demorou para que ficasse claro que se tratava, pura e simplesmente, do perdão a quem organizou, pensou, financiou e seria o principal beneficiado pela intentona golpista. E isso não pode ser esquecido, deixado de lado em nome de uma pretensa “pacificação” social, que existe apenas nas palavras de quem a defende.

Como bem disse o vice-presidente Geraldo Alckmin na cerimônia que marcou o aniversário dos atos antidemocráticos e tentativa de golpe de estado, realizada ontem no Palácio do Planalto, justiça não se divide, não se fraciona. Aliás, Alckmin, ao lado do presidente Lula, que também ontem vetou a proposta de impunidade, teria sua vida ceifada caso o plano tivesse dado certo. E muito provavelmente eu não estaria escrevendo esse artigo.

E para apagar da nossa memória as cenas de violência explícita, os autointitulados patriotas reduzem o caos usando o discurso do “batom na estátua”, assim como se aproveitam da saúde debilitada, das hérnias, dos soluços e esofagites para levar para o conforto da sua casa quem envenenou o espírito de muitos brasileiros com mentiras e ódio e cuja “coragem” somente existia nas redes sociais, nas falas diárias a seus apoiadores ou nos palanques de manifestações verde-amarelas.

Mas por mais que tentem, nós não esqueceremos e cotidianamente nos lembraremos de que o 8 de Janeiro de 2023 foi uma triste página da nossa História, o ápice de algo construído dia após dia, com falsidades e distorções da realidade. E teremos sempre claro que a democracia pode não ser perfeita, mas ainda é o melhor dos sistemas.

O 8 de Janeiro de 2023 jamais será esquecido por quem realmente defende a participação legítima do povo nas escolhas feitas como sujeito do seu próprio destino. E que deixemos no passado somente aqueles que nunca deveriam ter saído do submundo da insensatez e da mediocridade.

A memória, e o respeito a ela, é o nosso passaporte para uma cultura de paz, soberania, resistência aos arbítrios, democracia e convivência respeitosa entre diferentes. Sem ela, estaremos fadados a repetir os erros de ontem, erguendo entre nós um muro de injustiça, preconceito e intolerância.

Foto: Joedson Alves/Agência Brasil 

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