Artigo – A indigência assombra 30 mil servidores do Rio Grande

Por Valdeci Oliveira –

Imagine você, pai ou mãe de família, ganhando o mesmo salário que recebia há 11 anos. E que esse provento hoje é menor que o salário-mínimo, pois você não teve direito a nenhum dos reajustes concedidos aos seus colegas de trabalho. Imagine agora tendo que, com esse valor, cumprir compromissos e obrigações como aluguel, alimentação, vestuário, transporte, medicamentos e tudo mais que se apresentar necessário diante de ti e da sua família. E isso depois de 20 anos ou mais trabalhando todos os dias, se dedicando, mostrando, principalmente nos momentos mais críticos, que seu trabalho é necessário, fundamental.

Parece surreal, mas essa é a realidade de mais de 30 mil homens e mulheres do serviço público estadual cujos cargos foram excluídos, deixados de fora da reestruturação das carreiras levada a cabo pelo governo gaúcho. O máximo que é concedido a esse enorme contingente de trabalhadores e trabalhadoras relegados à margem da estrutura funcional é um pequeno valor, na forma de completivo, para que alcancem o mínimo do mínimo. E mesmo assim não terão direito de levar para suas aposentadorias essa diferença que se apresenta em forma migalha que lhes é jogada como se favor fosse.

Na área da saúde, ponto sensível para qualquer administração pública, esse exército de injustiçados e invisíveis aos olhos da burocracia estatal é formado por mais de mil pessoas, parte aposentada e outra ainda na ativa, que atuaram tanto na pandemia como no auxílio aos afetados pela enchente de 2024. De heróis e heroínas diante do caos, passaram a miseráveis. Por estarem lotados nos chamados “cargos em extinção”, decisão que não coube a eles tomar e nem a eles foi perguntado, sobrevivem como podem.

As inúmeras carências do dia a dia são enfrentadas com resiliência, mas não sem revolta. E são minimamente aliviadas quando alguma ajuda chega por meio de parentes, amigos. Aos de menos sorte, o despejo da morada por não conseguirem pagar o aluguel é um fantasma que os acompanha dia e noite, pois sabem que a qualquer momento deixará de ser um temor para se transformar em realidade. Outros buscam na coleta de material reciclável – sim, aquilo que para nós não passa de lixo – uma forma, mesmo que diminuta, para atravessar o mês.

Mesmo com apenas R$ 975,00 como rendimento mensal básico, pois pertencem aos chamados ‘cargos em extinção”, continuam se dedicando ao ofício a que se propuseram, atendendo as pessoas e até mesmo ensinando colegas que vieram depois e hoje, com suas carreiras reestruturadas, ganham três vezes mais. Mas isso não importa, pois o espírito público, que faltou a quem formatou a tal reestruturação, a eles continua existindo.

Como explicado na última quarta-feira (25), na Comissão de Saúde e de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa, por três lutadoras – Cíntia, Luciana e Márcia – da causa desses “esquecidos”, historicamente a diferença salarial entre o grupo e os servidores do chamado “nível médio” era de R$ 100. Mas pouco a pouco, o que parecia ser pequeno se transformou num abismo intransponível que agora chega fácil aos R$ 3 mil, e sem perspectiva – ou esperanças – de mudança, a não ser para pior. Também pediram por dignidade, empatia, justiça e equidade. E que fossem vistas não como uma “identidade funcional”, mas como seres humanos que precisam receber dignamente pelo trabalho que realizam.

E em nenhum momento reclamaram que não recebem atenção de seus interlocutores nos gabinetes da estrutura pública, nas peregrinações intermináveis em busca de algum apoio. Mas deixaram claro que, se ouvidos atentos são sempre bem-vindos, são ações concretas que podem resolver a questão. Lutadoras de uma causa nobre, Cíntia, Luciana e Márcia têm consciência de que as regras vigentes impõem que qualquer medida em favor daqueles que representam deve partir do governo do estado. E que numa democracia, são os votos – mais precisamente a maioria destes – que decidem para onde caminha a sociedade. E quem os tem hoje em maior parte no Legislativo é quem ocupa o Palácio Piratini, que ignora o assunto. Mesmo assim, como deve ser em toda luta que se acredita, não desistem.

Se no plenário nossas emendas em favor de quem vive à margem são, na maioria das vezes, a pedido do governador, soterradas pelos partidos da direita, na Comissão de Saúde temos mais liberdade de ação. Assim, estou propondo a criação de uma subcomissão para tratar do tema. Queremos com isso, num prazo de 120 dias, mapear a situação, buscar todas as informações pertinentes, ouvir as partes e elaborar um relatório com propostas que dialoguem com a realidade e necessidades desse enorme contingente formado, como já dito aqui, não por crachás ou identidades funcionais, mas por pessoas de carne e osso, com necessidades, sonhos, angústias e esperanças.

O sentido da política está justamente em ficar do lado daqueles que mais precisam. O resto é perfumaria.

(Artigo publicado originalmente publicado no site www.claudemirpereira.com.br)

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