Artigo – Os “amigos do rei” ganharam forte companhia

Por Valdeci Oliveira –

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Brasil, um pobre leva cerca de 9 gerações – ou cerca de dois séculos – para sair dessa condição. E a estimativa leva em consideração nosso histórico de concentração de renda e privilégios às elites. A lentidão em nossa mobilidade social tem inúmeros fatores, e o acesso restrito à educação superior é um deles.

Neste ano comemoramos os 21 anos do Programa Universidade para Todos (Prouni), 14 das cotas e 10 da formatura da primeira turma de alunos cotistas. As duas políticas públicas, ao lado da ampliação e fortalecimento do financiamento estudantil, abriram as universidades a um contingente de jovens cuja condição social os impedia. E também neste ano, o Brasil oferece o maior Prouni da sua história, com 594 mil bolsas de estudo para estudantes de universidades particulares que se enquadram nos requisitos de renda estipulados. A mudança foi “da água para o vinho.”

Nossas primeiras universidades foram criadas há 220 anos, mas por um longuíssimo período suas portas ficaram abertas apenas aos “amigos do rei”, para que seus filhos se tornassem doutores. E assim foi até que um metalúrgico, que passou longe dos bancos universitários, resolveu tentar mudar essa realidade. E conseguiu.

Desde que as ações de inclusão educacional começaram a ser implementadas de forma ampla no Brasil, com leis e recursos no orçamento, aos poucos temos conseguido mudar a cara da universidade brasileira. Mas não por coincidência, assim como acontece com o Bolsa Família, as públicas começaram a ser atacadas por uma horda fanática e mal-intencionada – mas com interesses eleitorais muito claros – quando os pobres e negros começaram a passar por seus portões e a sentarem em seus bancos. De sexo feito pelos corredores a plantações de drogas em seus terrenos, as fake news se mostraram “criativas” – mas enterradas pela realidade.

Levantamentos mostram que, além de precisarem ter frequência mínima, estudantes cotistas da educação superior federal alcançam uma taxa de conclusão 10% maior que a de não cotistas; 51% completaram o curso enquanto a taxa entre os não cotistas é 41%. Entre os bolsistas, 58% concluíram a graduação em comparação aos 36% que não integram o programa.

Ao comemorarmos os “aniversários” do Prouni e das cotas comemoramos também as oportunidades dadas a jovens que as estão aproveitando a chance com afinco e dedicação. E que discursos preconceituosos e que falseiam a verdade sejam jogados na lata de lixo da História.

(Artigo originalmente publicado no jornal Diário de Santa Maria – edição de 02 de abril de 2026)

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