Por Valdeci Oliveira –
Dentre os privilégios que a vida tem a oferecer, presenciar e participar de momentos históricos está entre os mais relevantes e importantes que nós, seres humanos pensantes, podemos desejar, além, é claro, de experimentar a vida em todo seu esplendor e possibilidades. E o atual momento, não tenho dúvida alguma disso, está inserido neste contexto em que ser testemunha ocular da história sendo escrita tem um valor difícil de ser mensurado, medido, tamanha é sua importância na reformulação do que dela virá nos ditames da ordem mundial.
Vivemos um cenário internacional caótico, onde acordos são ignorados diariamente, combinados são jogados na lata do lixo, onde as leis são desrespeitadas por aqueles que detém a força, como se o tacape pré-histórico fosse o “argumento” a ser buscado. E, pior, os mesmos que o utilizam se orgulham disso na mesma medida em que não mais escondem seus nefastos interesses, normalizam a barbárie e não se escondem mais atrás de discursos rebuscados como se moderados fossem. Não, não há mais hipocrisia. O que há é o cinismo em seu mais alto grau de pureza.
E como não somos uma ilha, isso nos afeta por aqui, seja como rescaldo, seja pelo modo de atuar de grupos sociais que se sentem fortalecidos, respaldados e se identificam com essa maneira de ser, os mesmos que se apresentam como porta-vozes desse disruptivo modo de enxergar o mundo que sequer fala português. Não precisa.
Com quase sete décadas de existência, onde o aprendizado e o vivido se somam, talvez eu não mais me surpreendesse com as idas e vindas do rumo tomado por esse ônibus chamado civilização. E olha que nesse mais de meio século convivi, mesmo que distante, com as diversas guerras travadas na Ásia e no Oriente Médio levadas a cabo pelos mesmos atores de hoje. Acompanhei por leituras e pela TV a queda de regimes, a maldade sendo instrumentalizada em campos de concentração e a força do dinheiro e do poder bélico sendo impostos àqueles que não os tem. Vi a fome na África dizimar milhares sob o olhar plácido de quem poderia e deveria evitá-la.
Por aqui, nesse mais de meio século de caminhada, presenciei a instalação e a derrocada de uma ditadura sanguinária, nos moldes de outras que se apresentaram na América Latina financiadas pelos mesmos que hoje buscam ditar, com bombas, os rumos das nossas vidas. E que contam com apoio irrestrito de segmentos radicalizados e antidemocráticos que juram defender nossa bandeira.
Sim, poderia hoje não mais me surpreender ou me importar. Mas tive a sorte, desde muito pequeno, de entender que o bem do outro é tão importante quanto o nosso próprio. Que a falta de comida não é uma imposição divina, mas fruto das ações e escolhas dos homens, principalmente daqueles cujo poder reside no mando. E que bombas não trazem paz, mas dor, injustiça, ódio e, numa questão de tempo, vingança. E o que é bom para nós não necessariamente é o melhor para todos.
A atual conjuntura que vem sendo escrita, lá fora e aqui, nos impõe fazer escolhas para além dos nossos próprios interesses. Nos faz abrir mão de desejos que ficam pequenos diante do tamanho do que vem se desenhando, com a possibilidade de o que há de mais retrógrado, infame e brutalizado na política brasileira voltar a impor seus desejos e vontades, por mais patéticos ou criminosos que pareçam. E isso tem a ver não apenas com o RS ou com o Brasil, mas com o que significa, em termos simbólicos e geopolíticos, para a América Latina, para o mundo, para todos aqueles e aquelas que ainda carregam consigo e prezam por um mínimo de civilizatório, para todos e todas que não abriram a porta de seus corações e mentes para discursos de ódio, segregação, xenofobia, misoginia, intolerância e exclusão. Para aqueles que diante do fascismo se postam em sua frente para evitar que avance.
A atual conjuntura, que não de hoje vem sendo estruturada com método e ação, nos impõe cortar na carne, olhar para além do nosso umbigo. É como estar diante de uma encruzilhada que pouco ou nada nos oferece em termos de direção, fazendo com que tenhamos de acertar na escolha, sem chance de errar. O momento não nos oferece esse privilégio. Por outro lado, a democracia nos oferta a possibilidade de unir esforços, ter um corpo único, formado por um conjunto de diferentes lutadores sociais para barrar o avanço dessa espécie de obscurantismo da idade média, em que o ser, a depender da sua cor ou condição social, não tem alma. E que por isso mesmo carece do direito de viver, escolher e, quiçá, sonhar.
Diante dos nossos olhos, o que se mostra é o apetite voraz vindo do norte do nosso continente, o que nos transforma em potencial vítima de seus caprichos, exigindo das forças democráticas a demonstração prática de altivez e responsabilidade política.
Olhar para a floresta ao invés de para uma única árvore é a analogia que encontro para descrever o momento. E reeleger o presidente Lula é evitar que a “usina de retrocessos” volte a produzir pobreza e violência.
(Artigo originalmente publicado no site www.claudemirpereira.com.br)

